quinta-feira, 3 de maio de 2012

Flor de Amor




Deslacro o invólucro umbilical, me ponho em aberta flor.
Me solto. Todo o meu pólen – pequenos cacos – a aberto espaço.
Não mais eu, mas o todo.
Onde foram parar meus pequenos fragmentos?
Não lamento, só sinto.

Expando. Expando e me espalho com o vento.

Chego à sua janela, pela qual continuo expandindo adentro.
Até que toco seu rosto em um suave beijo.
Sussurro:
“Tudo isso foi só pra dizer
Que estou gostando de você.”

Você já percebeu como em todo desabrochar existe uma paixão?

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Abelheu


A abelha...
A abelha morreu.
Eu matei a abelha.
A abelha...
A Abelha Sou Eu.
Eu morri na abelha.
A morte não é confortável. Ela não é confortável.
Ela é acolhedora. A grande acolhedora de todo fim de ciclo.
Mas não é ruim estar na morte.
A gente esquece que já foi vivo.
A abelha esqueceu?
Eu esqueci?
Tudo morre.
Tudo acaba.
Tudo permanece.
Tudo permanece?
Eu permaneço.
E a abelha? Permanece?
Estaria ela sofrendo sua morte? Sem saber onde está ou mesmo o que é. Ela sente. E sentindo ela sabe. Mas por que morrer? Por que ela sente a bunda se abrindo? Ela tenta arrumar, tenta dar um jeito naquela bagunça, mas já não há tempo. Quanto tempo levou pra aquela bagunça acontecer? Em qual micro-segundo ela sentiu aquele arrebatamento?

Arrebentamento. Arrebentou alguma coisa aí dentro...

Sinto muito... eu tentei mandar você embora, mas você ficou toda agitada daquele jeito! Vindo pra cima de mim como se eu fosse um predador! Um predador? Uma presa!

O que você tava fazendo aqui, abelha? Qual era seu recado? Espero que eu não precisasse te dar um resposta, essa que você levaria com todo zelo de volta pro mundo de onde saiu com a mensagem. Qual era a mensagem?
Era sobre a acolhedora e pouco confortável morte?
Era sobre o esquecer de algo? Ou sobre o lembrar de alguma coisa? Coisa alguma...

Não há tal coisa ‘coisa’.
Coisa alguma. Ou pouca coisa.

De qualquer forma, era uma vida, uma abelha vida. Talvez uma colméia inteira. Era uma abelha vida, viu...
E quem não leva uma abelha vida deveria se envergonhar! É uma vergonha que carregue toda essa colméia escondida, acaçapada como algo feio e indesejável. Ora, deixe de bobagem! Venha cá, ponha sua colméia pra fora! Ela é linda e merece um lugar especial no mundo.

Eu mereço um lugar bonito e especial no mundo. Nos seus braços, abelha! Em seus minúsculos e fininhos braços, cabeludinhos... engraçados, é fato, mas eles carregam toda sua colméia, toda a colméia que há em você. Toda colméia que é você. Toda colméia que sou eu.

Agora sinto seu zunir, seu zunzun em tudo que é eu.  Na boca de eu, nos dedos teclando de eu. Tudo agora é abelha e tudo tem ferroada. É meu zunzun agora. Agora eu sou a abelha e a abelha pode ser eu.

Não, não pode, não.
Eu morri na abelha
E a abelha em eu vive.

domingo, 8 de janeiro de 2012

despertar

somos pontes de arco-íris, sementes de luz e amor prestes a brotar. após eras e eras de cuidadosos preparativos, enfim surge o necessário ambiente para a grande jornada que se seguirá. alcançada a perfeita frequência de luz e som, a ideal combinação de elementos fisiológicos, inicia-se o processo conjunto de despertar. 

sementes de casca grossa, amontoadas em pequenos e infinitos canteiros, semeadas ao gosto do acaso, tornamo-nos capazes de iniciar nosso processo de emergir da dormência. cada semente apenas poderá ser acordada pela própria luz interior e, iniciado o processo, a existência assume fluidez tal, nunca antes experimentada pela ativa consciência que a experiencia. não existem métodos de influência externa no processo. este somente ocorre a partir de mecanismos internos à semente.

brotamos pelo céu da boca. a sensação é de uma grande pressão no palato, seguido de um profunda vontade de abrir-se, partir-se ao meio, deixar que a luz seja liberada e ilumine os escuros caminhos das existências que nos cercam.


OM

na madrugada
somente a geladeira
num eterno OM