domingo, 12 de fevereiro de 2012

Abelheu


A abelha...
A abelha morreu.
Eu matei a abelha.
A abelha...
A Abelha Sou Eu.
Eu morri na abelha.
A morte não é confortável. Ela não é confortável.
Ela é acolhedora. A grande acolhedora de todo fim de ciclo.
Mas não é ruim estar na morte.
A gente esquece que já foi vivo.
A abelha esqueceu?
Eu esqueci?
Tudo morre.
Tudo acaba.
Tudo permanece.
Tudo permanece?
Eu permaneço.
E a abelha? Permanece?
Estaria ela sofrendo sua morte? Sem saber onde está ou mesmo o que é. Ela sente. E sentindo ela sabe. Mas por que morrer? Por que ela sente a bunda se abrindo? Ela tenta arrumar, tenta dar um jeito naquela bagunça, mas já não há tempo. Quanto tempo levou pra aquela bagunça acontecer? Em qual micro-segundo ela sentiu aquele arrebatamento?

Arrebentamento. Arrebentou alguma coisa aí dentro...

Sinto muito... eu tentei mandar você embora, mas você ficou toda agitada daquele jeito! Vindo pra cima de mim como se eu fosse um predador! Um predador? Uma presa!

O que você tava fazendo aqui, abelha? Qual era seu recado? Espero que eu não precisasse te dar um resposta, essa que você levaria com todo zelo de volta pro mundo de onde saiu com a mensagem. Qual era a mensagem?
Era sobre a acolhedora e pouco confortável morte?
Era sobre o esquecer de algo? Ou sobre o lembrar de alguma coisa? Coisa alguma...

Não há tal coisa ‘coisa’.
Coisa alguma. Ou pouca coisa.

De qualquer forma, era uma vida, uma abelha vida. Talvez uma colméia inteira. Era uma abelha vida, viu...
E quem não leva uma abelha vida deveria se envergonhar! É uma vergonha que carregue toda essa colméia escondida, acaçapada como algo feio e indesejável. Ora, deixe de bobagem! Venha cá, ponha sua colméia pra fora! Ela é linda e merece um lugar especial no mundo.

Eu mereço um lugar bonito e especial no mundo. Nos seus braços, abelha! Em seus minúsculos e fininhos braços, cabeludinhos... engraçados, é fato, mas eles carregam toda sua colméia, toda a colméia que há em você. Toda colméia que é você. Toda colméia que sou eu.

Agora sinto seu zunir, seu zunzun em tudo que é eu.  Na boca de eu, nos dedos teclando de eu. Tudo agora é abelha e tudo tem ferroada. É meu zunzun agora. Agora eu sou a abelha e a abelha pode ser eu.

Não, não pode, não.
Eu morri na abelha
E a abelha em eu vive.

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